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Crescer não significa desvio de índole, diz Abelardo Duarte Sobrinho - 05/01/10

Entusiasta do papel que as cooperativas podem assumir na redução do custo do dinheiro no país, o consultor do Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, Abelardo Duarte de Melo Sobrinho, defende as fusões "preventivas" - isto é, aquelas que unem instituições saudáveis. Além disso, ele fulmina o receio, ainda latente em setores do cooperativismo, de que o crescimento pode trazer problemas. "Ninguém consegue competir com sua própria fraqueza", adverte. Confira, a seguir, a entrevista que concedeu à revista Amanhã.

A fusão de cooperativas de crédito no Brasil é uma tendência?

Abelardo Duarte de Melo Sobrinho - Observa-se tendência crescente entre janeiro de 2008 e junho de 2009, com média de duas incorporações por mês, contra menos de uma entre 2003 e 2007. Ainda assim, são movimentos tímidos e na maioria das vezes decorrentes de solução de última instância para dificuldades que atingiram níveis insuportáveis. Claro que a capacidade de reação é salutar, já que resolve problemas que, de alguma forma, poderiam comprometer a marca cooperativa. Entretanto, de maior relevância, é o processo de incorporações preventivas de forma a evitar riscos de continuidade e o aprofundamento de problemas que, em momentos futuros, podem mesmo inviabilizar soluções.

Quais as vantagens desse processo de consolidação?

Abelardo Sobrinho - Uma das principais é o ganho de competitividade. Em ambiente de juros declinantes, como é desejo de toda sociedade, é imperioso cortar custos, sem que isto signifique risco de continuidade. Vejamos um exemplo singelo: uma empresa não consegue mais colocar seu produto com margem suficiente para equilibrar, no mínimo, seus custos de funcionamento. Ou corta esses custos, de forma a reduzir a margem financeira, ou terá de colocar a inútil placa na porta: "Precisa-se de clientes". Só que há limite para esses cortes, sob pena de não atender à estrutura mínima ideal e, portanto, sucumbir. Nessa situação só há duas soluções: ou fecha as portas com placa e tudo ou então se junta com outros parceiros. Este é o princípio. A arte é fazer esses movimentos de forma preventiva, com visão de futuro que permita antecipar cenários. Todos ganham.

Há riscos? O sistema pode se afastar de algumas de suas raízes na relação com a comunidade, na medida em que dê origem a "mamutes", digamos, com a missão de enfrentar os bancos tradicionais?

Abelardo Sobrinho - A má notícia é que tudo na vida envolve risco. A boa é que tudo também depende de nosso comportamento. Há um desvio muito grande em imaginar que a descaracterização dos princípios cooperativistas seja conseqüência inevitável do enfrentamento do mercado. Devemos abolir esse sentimento de que crescimento é sinônimo de desvio da índole. Ninguém consegue competir com sua própria fraqueza. As cooperativas que se afastarem de seus propósitos serão julgadas pelos próprios associados e, em nível mais drástico, até mesmo pelo Estado. O desafio é fazer com que a cultura cooperativista seja algo contido mais na formação do que no discurso. E essa disseminação de cultura tem sido muito forte nos últimos tempos.

Das cerca de 1,5 mil cooperativas de crédito no Brasil, quantas devem restar, considerando-se a tendência de fusões no segmento?

Abelardo Sobrinho - A resposta seria premonição. Ideal é responder primeiro: "Qual o tamanho ideal do sistema cooperativista para o Brasil?". Alguns dados podem contribuir para essa reflexão. Hoje, cerca de 60% dos municípios brasileiros não possuem presença cooperativista, com destaque para as regiões Norte e Nordeste, onde há tantos espaços livres. Em contrapartida, as regiões Sudeste e Sul detêm 75% das cooperativas brasileiras. Ou seja: há ainda grande espaço a ser ocupado. O importante é discutir a forma. Creio que em muitas localidades esse atendimento possa ser feito mediante instalação de Postos de Atendimento Cooperativo -PACs -, como, aliás, tem sido tendência nos últimos dois anos. Em outras, no entanto, há necessidade de presença de sedes. Em suma: há espaço para enxugar o número de cooperativas em certas regiões e para aumentar em outras.

Fonte: Revista Amanhã

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